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18/12/2007
Afonia

Não se houve por aí: ai que afonia! Não se pode dizer, se pudesse, eu diria. Melhor, diria: que saco de afonia!!

É engraçado como mudou meu ponto de vista sobre as pessoas e sobre mim mesma deste a manhã passada: faço conjecturas, analiso situações, penso muito antes de falar (com as mãos, corpo, expressões faciais, etc) Estive pensando: se pra bom entendedor, um pingo é letra, pra bom ouvidor um gesto é palavra, ou talvez oração. Penso no outro, na melhor maneira de fazê-lo me entender, adaptando minha mímica ao contexto do interlocutor. Como é que pode eu já ter me adaptado a essa tão nova realidade? Faço gestos, mexo a boca, estampo expressões e voilà: todos me entendem. Ainda assim, acho que sou outra, não consigo ser eu mesma: falar bobagem ou falar alto pra chamar a atenção.

Sem voz, sou outra, minha personalidade é outra: quando ando,dirijo, cozinho, ainda sou eu mesma, mas na hora de me comunicar, virei outra. Me comunico com muito mais atenção, mais cuidado, penso antes de 'falar', elaboro muito mais. As pessoas - ao contrário do que imaginei - têm muito mais paciência e muito mais interesse em me entender. Deve ser porque elas pensam que se eu tô fazendo um baita sacrifício de me fazer entender por gesto, é porque deve ser importante. As vezes, nem é importante, mas ninguém reclama do esforço que fez... Se não fossse pela falta da voz, eu diria que é ótimo estar afônica.

Voltando a minha personalidade: sou mesmo outra... como posso querer falar mais alto pra chamar atenção? E falar bobagem? Como é que se faz isso estando calada? Só de imaginar me dá arrepios: os gestos são obscenos, vulgares... Não dá pra fazer graça sem a fala. Chamar a atenção, só dançando ou fazendo malabarismo. Xingar no trânsito, só com plaquinha:
- Onde é que você comprou sua carteira? - Não sabe dar seta, não? Teria que providenciar as plaquinhas em casa e deixa-las a mão no banco do lado. Ninguém ia xingar de volta, iam achar que sou doida, ou tô fazendo graça, ou até mesmo, que sou surda, já que sou muda.

Hoje já tive o gosto de ter um representante: meu sócio-amigo-irmão que respondeu aos telefonemas, conversou com pessoas por mim e até traduziu alguns gestos pra atalhar o entendimento. Tive também o gosto da chacota: virei a mudinha, e a primeira coisa que me foi oferecida quando cheguei a casa dele foi um bloco e uma caneta. Ao telefone, temos um código: um assobio é sim, dois é não, se tenho que argumentar eu escrevo um bilhete (com letras cursivas, bem feitas e redondas) e meu filho, de 7 anos, lê.

No fim do dia, muito preocupado, meu filho me perguntou: - Mamãe, você não vai ficar assim pra sempre não, né?

Espero que não mesmo. Espero falar em breve e retomar minha personalidade que se esvaiu com minha voz.



:: Escrito por Paula às 04:09:12 ::
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12/12/2007
A espera de edições revistas e ampliadas

Hoje, quarta-feira, doze de dezembro: quase diário, meu registro, longe de pontual, deve acontecer. Pois bem, devo começar pela FELIT, o 1o. Festival de Literatura de São João del-Rei. Um Festival que se encaixou num espaço aconchegante, charmoso e convidativo, e assim se fez... Entre mesas redondas, mostras culturais, poetas, escritores, a Literatura no(s) seu(s) papel(éis) fez "bonito". Não vai sair de cena: intempestiva, ela aponta para o futuro, detém o passado e nos arremessa para o presente. Compõe a única forma onde o homem se vê por inteiro, na sua mediocridade ou no heroísmo, nos feitos ou nos seus desarranjos.  Meu outro, ela me faz ser eu: me reconheço, me constituo, me espelho, me renego. Um eu de alcance no outro, trava as relações entre povos, culturas, lugares, épocas. Trava a tensão entre eu e outro. E é assim, muito mais, porque é metáfora, por é hipérbole e zeugma, porque é Literatura.
Terminada a FELIT, ficam os contatos, as amizades, as afinidades literárias. Espera-se a próxima com um entusiasmo, com possibilidades de crescimento. Sempre assim: edições revistas e ampliadas. O público pede. Eu aguardo.
Vai aqui meu abraço para a Maria Ângela, a  curadora do festival, que incansável fez com o novo acontecesse.
Fica também a lembrança das figuras extraordinárias do Ferreira Gullar e do Chacal. Ressoam-se os poemas enquanto os sinos dobram...



:: Escrito por Betto Silveira às 12:05:59 ::
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09/12/2007
Luís na Felit

Teve o 1º FELIT no fim de semana. Foi muito bom em todos os sentidos possíveis, mas tenho que, antes de qualquer coisa, anotar logo - para não esquecer - uma graça do meu filho, Luís, que tem tudo a ver... Pra contextualizar, ele tem 7 anos e está na 1ª série.

Tinha uma feira de livros em um dos galpões da rotunda da estação de trem São João del-Rei. Quando chegamos lá, na tarde de sábado, fomos direto pra a feira e disse ao meu filho que ele poderia escolher um livro. Depois de muita dúvida, ele escolheu um autor que já é velho conhecido dele (e meu também): Léo Cunha, o livro se chama Profissonhos. Da feira de livros fui para uma mesa redonda e levei o Luís comigo. Lá, como o assunto não era de longe do interesse dele, aproveitou pra começar a ler seu novo livrinho. Quando a sessão acabou, fomos embora e no carro ele começou um assunto diferente, com um ar de preocupação:
- Mamãe, eu acho que eu não quero crescer. E eu logo perguntei porque e ele me respondeu naturalmente: - Eu vou ter que dirijir e eu não gosto... Depois continuou: - Eu nem sei o que vou ser quando crescer, não sei o que vou fazer, ainda não escolhi uma profissão, nem tenho certeza se vou mesmo querer ser arquiteto! (pausa) Eu estava pensando em ser pirata, mas,  nem um navio eu tenho! Se bem que piratas roubam, então eu também posso roubar um. Daí interferi: - Mas roubar não é legal, né?, e ele retrucou:
- Mamãe, o Jack Sparrow roubava e ele é do bem, também quero ser um pirata do bem!

Aí foi o ponto final da minha interferência, ele tinha toda razão: na cabeça dele ele pode roubar um navio sem ser ladrão, sem prejudicar o outro e navegar no mar de montanhas da região em que mora. Eu é que não gostaria que ele crescesse, ou melhor, que não perdesse a ingenuidade e a capacidade de sonhar que ele tem hoje.



:: Escrito por Paula às 21:09:32 ::
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04/12/2007
Oficina literária

Temos recebido, como já anunciado, várias mensagens que parabenizam nosso site. E mais que isso estamos tendo um retorno do que está sendo publicado, principalmnte nas sessões sobre contos, poesias e crônicas. Além de participar, nosso leitores-autores ou autores-leitores comentam cada uma das publicações, o que promove um constante debate, uma verdadeira oficina literária online.

Assim, a literatura torna-se viva, dinâmica e flui por redes e mentes.

Fica assim feito, mais uma vez, o convite.

Mais tarde comento aqui o conto breve e os arredores de "Detalhe", de Alberto Tibaji.



:: Escrito por Betto às 13:57:22 ::
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04/12/2007
Eu e meu amor...!?

...tive que levantar da cama: não me bastou a masturbação, mental que fosse... tive que documentar o momento. Ele?... ele se instaura em mim e a partir disso vivo o que quero viver com ele, como num sonho. Quando ele se torna real, nada em mim me condena e tudo em mim comemora. Nada me faz declarar, tudo me faz apaixonar. Ele não participa de nada, algo meu. Eu sofro e me regozijo nesse amor, como no poema de Chrétien de Troyes: De tout le maux, le mien diffère/ Il me plait, je me rejouis de lui. Assim, sento, escrevo e gozo, como deveria gozar uma mulher, mas sem a participação dele, sem que ele saiba da saudade, da vontade, do amor, da escrita, do vinho que foi bebido sem sua companhia e das roladas na cama sem conseguir dormir...



:: Escrito por Paula às 00:56:24 ::
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